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Romeu Foz

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X-stória

 

Olho para ti e leio uma história.
Um corpo que foi banquete... sertão.
Emaranhado de cabelos de outras vidas,
Brilhantes, quebradiças, oleosas.
Uma estrada percorre tuas rugas,
Mil caminhos matizam teu olhar.
Deixa-me escavar tuas unhas
E descobrir as ruínas que aí se escondem.

 

Ah... fosse eu teu biógrafo e não saberia o que escrever;
Inventava, certamente.

 

Olho para ti e vejo muitas, muitas histórias;
Todas verdade, todas
Mentira.

 

 

 

É Noite


É noite.
Teu olhar ilumina nosso quarto.

 

Conhecemo-nos há tantos, tantos cigarros atrás,
E mesmo assim a dança de nossos desejos
Continua acesa,
Como na primeira vez.

 

Nossas vozes ainda se confundem,
Entre arrepios e gemidos,
Num soltar de orgasmos simultâneos.

 

Nossos corpos não cessam de se perder
Num degustar de vinho envelhecido,
E nossos corações, esses,
Ainda pulam, correndo
Como crianças atrás de um amanhã sempiterno.

 

É noite. Uma cama desfeita...
E as vozes dos carros dizem-me que estou só.

 

Deixou a luz acesa...
Essa mesma que agora derrama minha sombra.

 

É noite.
Apago a luz.
Não tenho medo do escuro.

 

 

 

Cacofónico sentir


Vivo numa casa
De mobília desencontrada,
Onde o sol de outros lugares
Ressua no espelho desta manhã embaciada.

 

Uma bola que saltita nos corredores do tempo,
Um sofá amassado por paixões que foram,
Uma cama chiando os passos perdidos de um hospital,
Uma manta de retalhos de pessoas em trânsito.

 

Daqui vejo esse pátio de risos entaramelados,
Onde a chuva se faz pó,
E o vento sussurra cheiros e retratos descasados.

 

O que fazer da areia que trago nos pés
Desses lugares onde já fui
E de outros onde ainda quero ser?

 

Ah, cacofónico sentir esse de mim feito pedaços.

 

 

 

Jasmine


No meio da mancha citadina,
uma claridade afirma-se.
A luz é a voz que melhor se ouve na noite...
Chamamentos, orgias deles!, desnudam o caminho.
A multidão segue-os,
a multidão concentra-se,
a multidão dispersa-se…
Uma via sacra de sexshops abençoa
toda uma ladainha de olhares gaguejantes,
de mãos embevecidas,
de húmidos respiros.
A cada passo,
latejam reclames excitados,
imagens nuas de corpos
em posições devotas,
anunciando visões,
sussurrando segredos,
prometendo milagres...
Os porteiros, esses, reclamam por fiéis,
como almuadens lá do alto de seus minaretes.
Por esconsas ruelas,
rosários de meninas abrem suas portas,
suas pernas,
às confissões dos peregrinos,
redimindo-os, absolvendo-os, absorvendo-os.
Sedutoras, domadoras, servas...
Elas serão o que o salivar deles quiser,
o que o credo deles ditar.
Ao longe...
um museu do sexo, pregando nobreza nesta liturgia.
É noite
e ela prepara-se para mais um dia.
Daqui a nada, lançar-se-á pelas ruas iluminadas,
entre procissões de transeuntes que marcham
num tropel de urros e gargalhadas.
Marcham na fé de verem suas preces saciadas.
E, no meio deles, ela,
de fôlego esganado,
já os vê rezando sobre si,
profanando seu corpo, seu templo.

 

 


Daqui Vejo


Daqui vejo o corrupio dos dias.

 

Já vejo a mãe de passos apressados,
Voando para a gaiola do emprego,
Depois de largar sua filha
Com sua mochila de adulta sisudez.

 

A mãe que já foi mulher de um homem,
Que viu partir por não ter tempo para ele,
E que agora corre atrás de outro
Que não queira mais que beijos fugazes
No fechar de portas despachadas.

 

Daqui sinto correntes de ar.

 

Pressinto o resfolgar anelante
Do velho professor ali ao dobrar da esquina,
Arrastando sua perna diabética,
Atrasando a morte sempre apressada.

 

Esse velho professor de matemática
Que tanto ensinou
E que nunca aprendeu
Que a soma dos segundos corresponde ao passar de uma vida.

 

Ouço o bater das horas na torre
Que me resguarda do sol e da chuva.

 

Ainda falta o rico advogado
Que, como sempre, virá preso em seu fato engomado,
Desses costurados pelas mãos escravas de gente sem posses.
Já o vislumbro fitando seu relógio,
Contando a solidão da noite vizinha,
E adivinho que não terá muito para contar,
Apenas o vazio de um dia cheio de trabalho.

 

Escuto os já ténues raios de sol,
Roçagando obliquamente pelos telhados.
Escuto o tilintar de uma moeda órfã
Caindo em meu copo vazio.

 

Que sorte que eu tenho...
Em não ter que contar dinheiro.


 

* * *


 

 

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