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ARTICULAR LO IMPOSIBLE / ARTICULANDO O IMPOSSÍVEL / UTTERING THE FORBIDDEN  
 

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Carolina Alvim Ferreira

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CRONOTOPO

 

Meados de um mês que nem valia a pena ser lembrado. Morno. Por aqui, tudo na mesma. Por lá, não sabia ao certo ‑ há muito não voltava para uma das minhas casas ‑, mas era possível supor que o sol tocava tudo. Era como se estivesse numa fluorescência que me contraía e ela numa incandescência invejavelmente expansiva. Por isso, e por muitas vontades sem justificativa, queria que me percebesse. Não havia objetivo e não havia de haver. A gente nunca teve motivo para estar há meses de distância, nem nunca teve motivo para não se perceber quando a distância não existia. Meus passos não eram passos porque estava presa, eram toques que tentavam fazer com que as nossas histórias se esbarrassem de novo, eram sutis. Mas nunca soube como que o muro podia ser tão alto se conseguia vê-la estando do lado de cá. Costurávamos monossílabas que inutilmente consentiam e os ponteiros continuavam a marchar cada vez mais rígidos e mais ameaçadores. Ela aparecia e penetrava todas as camadas da minha vontade, irrigando minha ânsia. Poderia ser um sonho dentro de um sonho. Uma garoa bem fina tocava a minha pele, pequenas estrelas cadentes esfriando a minha superfície como se eu fosse feita de terra quente. Era um não-lugar. Nem aqui, nem lá. Era em todas as partes em que o desejo poderia transbordar. A garoa se enxugava em mim quando ela chegou.

 

O relógio de parede tremia o azulejo; cada hora uma frutinha diferente. Ela chegou quando bateu sete laranjas e meia. A maçaneta girou e ela entrou pela porta da cozinha como entrou na minha vida - sem cerimônia. Eu estava de costas. Cozinhava sempre o dobro dizendo que era para ter o do dia seguinte garantido. Era para ela. O prato duralex de cor âmbar, os talheres em cabo de madeira e o copo americano estavam meticulosamente postos sobre a mesa na qual ela nunca comeu. Na mesa de um amor que nunca provou. A nossa fome era daquelas de comer os olhos de manhã, mastigando o sossego de quem abria as cortinas para receber luz. Continuei de costas mexendo a leiteira impacientemente. Não podia deixá-la de lado nem por um segundo. O leite ferve, cresce, a gente tira da boca do fogão, espera baixar e coloca de novo no fogo. Ela era o meu leite. Eu a queria fervendo mesmo que me queimasse, a queria perto e já não me importava se o seu amor era respingo. Assim mesmo, a colocava no fogo, a fazia crescer, a esfriava, provava na pele ‑ entre os lábios e as mãos. Nunca havia dito que era um convite, mas assim o leu e sentou-se à mesa colocando os dois pés na cadeira de vime co-mo-quem-i-ro-ni-za-a-pres-sa. Os malditos ponteiros chumbavam o vento. A lentidão escancarava os detalhes e essa paciência me corroía. Talvez fosse porque ela entendesse as voltas e revoltas do relógio mais que eu. Sempre me perdi ao tentar escapar do tempo e ainda me pergunto se para ela, em algum momento, ele significou essa distância que é para mim. Um abismo. A palavra não era presença apesar de saber que ela - tanto quanto eu - era movida por isso. Talvez aí esteja a nossa economia. Sua presença era, na verdade, um sopro quente batendo na janela, nessa janela que já suportou tanto toró. A quentura do seu sopro reverberava quase como se estivesse latejando, não chegava a doer. E a janela que não podia ser aberta por inteiro e foi deslizada, bem pouquinho, só para trocar o ar. Deixa trocar o ar - minha mãe dizia - assim você vai ficar doente, respirando o mesmo ar viciado de sempre. Minha mãe me escrevia; ela me lia; eu me apagava. E continuava tendo raiva de todas as pessoas que já a haviam chamado de leãozinho. Porque sei que chamaram. Mesmo sem saber, sei. Meu leãozinho. Por que tinha que ir embora cedo se chegou tarde em mim?


Sempre estranhei aquela mania chata de adiantar os minutos para nunca se atrasar e sempre detestei aquele relógio de parede barato de 1,99 que na verdade custou 12,99 reais e ninguém nunca deu o um centavo de troco. Mas entrei na cozinha dela como se fosse minha. Nunca sabia quais portas abriam para dentro ou para fora, ia no instinto, no calor do momento. Uma vez me disseram que as portas de comércio abrem para fora para caso haja uma emergência e que as portas de casa abrem para dentro porque o lar é seguro, ninguém vai precisar sair com pressa de lá. Depois que me falaram isso, tudo fez sentido. Eu não queria sair dela. Seu coração não era de mãe e se assim o dissesse seria uma falácia. Mas era um coração bom e ela era matriz. Seu colo era quente, me afundava em suas pernas para sempre todas as noites em que não estive. Sua pele e os pelos de suas pernas me davam a segurança que quase nunca tive. Estes mesmos pelos que se amedrontavam na minha presença, e seus passos que eram largos, mas não eram passos. Entrei já sabendo que não tinha como sair - e caí - me afundei, me atirei em silêncio quando as não-palavras eram tudo que uma pessoa de palavras tinha a oferecer. Silêncio que subverte a coincidência. Ela de costas. Será que sabia que esse meu vazio era também existência ou será que perdoaria meu atraso? Sou a inquietação que faz os ponteiros serem reticentes. Vai-e-volta. Escangalhado. Não dizia que ficaria, nem que ia, mas queria - e como queria - que ela me pusesse no seu desconforto. Mesmo sem descrever, me escrevia e eu era inteira poesia. Em corpos intertextuais, éramos o descombinar de memórias que tecia nossa história e que o tempo teimava em estraçalhar. Ela esperou eu partir para se expor, e esperou eu me partir. Uma promessa que veio depressa como o vento, mas que esqueceu que sou como pó ‑ e o vento me leva. Vento, lento, vento. A simultaneidade, para nós, é paradoxo. Eu vou voltar, ela sabe. Não vou ficar, mas quem sabe ainda sobra um espaço para que possa guardar o meu amor toda vez que eu voltar. Foi assim que entrei na cozinha dela esperando um café. Puro, por favor. Ela me veio com um café forte demais, amargo demais, e um pão francês cortado ao meio, na horizontal. Cada banda de pão para cada boca ainda com gosto de madrugada. Bebi o café não por ter que acordar, mas porque o calor me dilatava e precisava sair de mim. Me vejo deslizando atônita, como uma janela, em ideias que me levam para perto do seu viver. Deixar desviciar seu ar, essa janela já aguentou demais. Os raios de sol tocavam sua pele como tocavam meus cabelos e eu tenho raiva de todas as pessoas que me chamaram de leãozinho antes que ela o fizesse. Porque sei que ela o faria. Mesmo sem saber, eu sei. Seu leãozinho. Mas não importa porque abri a fresta e me deixei entrar. Se me permiti, então faça-me o favor de me deixar ficar. Não me venha com abreviações, meias palavras ou pontos finais; me venha com expressões, divagações e vírgulas porque meu silêncio é metade do meu sim. A outra metade não me sai em palavras porque ela as roubou de mim, tomou-as para si e guardou-as em sua boca amarga de café. Sou leitora, sou leite e locus. Sou cada hora somada em nossas distâncias e me pergunto se, de tanto se somarem, vão dar a volta e se enroscar e a gente se encontrar. Tiro os pés da cadeira de vime, transbordo da leiteira e escancaro a janela porque se a gente fosse, a gente seria em todas as partes, inclusive nos hiatos.


* * *

 

 

 

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