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Romeu Foz

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O SPIRRO

 

Uma tímida luz insinuava-se pelas frinchas velhas das persianas. No calor saturado do quarto, o seu bojo empinava-se sobre a matéria espapaçada do pénis, que jazia entre a geometria desengonçada das pernas. O silvo do seu ronco molestava o silêncio do quarto numa cadência assassina de contornos insuportáveis. A seu lado, ela. O sol beijava-lhe os pés. Mais acima, uma outra réstia de sol entrava-lhe pela pele, enterrava-se no meio do seu corpo, entre suas pernas. Se esperasse um pouco mais, uns minutos, uma eternidade, talvez este amante de luz lhe mordicasse o seio esquerdo, desenhando no bico deste a rigidez de uma tépida excitação. A força do sol intensificava-se, os raios penetravam agora com mais vigor. Os seus dedos masturbavam-lhe diversos pontos do corpo, num mapa de mornos prazeres. Sua cabeça deslizou um pouco, esboçando um tímido abandono de virgem envergonhada, e uma língua de sol lambia-lhe os olhos, envolvendo-os numa libidinosa maré de luz. Um esgar apoteótico adivinhava-se nos contornos húmidos de seus lábios e as narinas, essas, contorciam-se numa dança de palpitações excitadas. Repentinamente, um abalo. Uma explosão ejaculatória quebrantava toda esta coreografia de volúpias e um rasto de mucosidade esparramava-se em mil partículas pela atmosfera do quarto. Em busca de um lenço, abriu a gaveta da mesinha e embarrou num livro. Tirou-o para poder remexer à vontade na tralha que entupia a gaveta. O ranho escorria-lhe do nariz. Os lenços de papel não apareciam. Sem se preocupar, deixou cair a cabeça na almofada, puxou o lençol e permitiu que este roçagasse no corrimento. Após algumas fungadelas, pegou no livro que retirara da gaveta e deixou que suas páginas distraídas corressem por seus dedos alheados. Ela não tinha por hábito ler. Não conseguia entender como é que alguém retirava prazer desse tipo de coisas. Lembrava-se que o livro lhe fora oferecido há muito tempo num dos seus aniversários de juventude. Desde aí, o livro andara aos trambolhões, de caixa em caixa, de gaveta em gaveta. Seus dedos, ainda húmidos de ranho, estancavam agora numa das páginas.

 

O relógio arrastava-se no seu tique-taque infindável. Ele continuava no seu ressonar assassino. Ela ainda folheando. Debicava palavras soltas nas páginas amarelecidas deste livro que lhe fora oferecido. Não se lembrava é que quem lhe dera o livro fora o seu primeiro amor. Talvez descubra nas últimas páginas um poema de António Gedeão que ele transcrevera e aí se lembre do que não devia ter esquecido.

 

A fome apertara. Fora até à cozinha. Mastigava apaticamente umas torradas besuntadas de manteiga. O olhar perdia-se em pensamentos ocos. Dos dedos escorria-lhe um bocado de gordura. Passara as mãos pelo robe. Movimentos que o tempo transforma em hábitos. Hábitos que nos convertem em autómatos.

 

Cirandava pela casa à espera que a vontade lhe ditasse o que fazer. Lá fora, um sol que assassina vontades. Do quarto, sobrevinha-lhe o ronco do marido. Da televisão, ecos da noite de passagem de ano. Enterrara-se no sofá, o livro sobre os joelhos, aberto nas últimas páginas.

 

As frinchas dos olhos abriram-se. Um coquetel de odores pairava na penumbra do quarto. Os dedos, que deslizaram na baforada húmida das virilhas, passeavam agora pelas narinas. Estava enjoado, de ressaca talvez. Da casa, emanava um silêncio de mergulhador. Chamava por ela, ainda com a voz embargada pelos cigarros da noite anterior. Arrastara-se até à sala de estar. O dia declinava e uma pálida luz incidia sobre a mesa de centro. No tampo desta, um livro. Deixara-se cair sobre o sofá, um peso morto. Um pedaço de papel revolteava, caindo a seus pés. Vergara-se a custo para o apanhar, a cabeça latejava-lhe os excessos da noite anterior. A letra era dela, a mensagem era curta. Não esperes por mim, fui procurar bebedeiras de azul.

 

 

 

VAIDADES


Meu pai dizia que minha mãe se transformara numa estrela. Desta forma, a saudade batendo, poderia contemplá-la nas noites de cara lavada. Por vezes, em noites de verão, meu pai banhava-se na piscina. Dizia que ia conversar com minha mãe, refletida nas águas ainda tépidas. Era meu pai feito Macunaíma... Na altura em que meu pai resolvera construir a piscina, eu não entendera o porquê desse luxo. Perguntava-lhe se se deixara convencer pelas águas da vaidade. Depois, eu percebera que a superfície da piscina escondia razões mais profundas. Hoje, já me vejo conversando com meu pai em noites de verão, nas águas ainda tépidas da piscina.

 

****


Por vezes, o olhar de meu pai exprimia o vazio de mármores antigos. Quase que apostava que nessas alturas ele viajava para junto de minha mãe, mas ele nunca me dizia em que pensava. Eu tenho para mim que há viagens que são para ser feitas às escondidas e não para ser postadas em Facebooks. Meu pai não tinha Facebook. Ele sempre dizia que não queria ter nenhum desses placares de vaidades, que não raras vezes despertavam a inveja de quem os visitava. Quando eu postava fotos de viagens que fazia ou partilhava momentos especiais que eu julgava pertinente ostentar, meu pai dizia “lá vais tu com tuas vaidades arranjar mais uns inimigos por entre teus amigos disfarçados”. Ele lá tinha as suas razões, as suas verdades, mas eu contrapunha que vaidades e falsos amigos também os havia por aí, no seu mundo.

 

****


Fixo meu olhar na matriosca que meu pai trouxera da sua viagem à Rússia. Ele trazia sempre um objeto das suas viagens, que depois espalhava pela casa. Os papiros imitando muita idade, mas pintados de fresco, as máscaras exóticas de Bali, o boomerang com pinturas supostamente aborígenes, o quadro amarelo pastoso de Angkor Wat, o calendário maia esculpido em madeira que o tempo já desbotou, os tais timorenses de motivos geométricos, a estátua de Homero, já com o nariz lascado, o berimbau do Brasil, a pandeireta de terras marroquinas... Estas eram suas vaidades que ele publicava no mural de sua casa. Este era o seu Facebook. Todos temos os nossos Facebooks. Fixo o olhar na matriosca e nela vejo a satisfação que meu pai trazia sempre que chegava dessas viagens. Surgia sempre rejuvenescido, com a ideia de ter conhecido mais uma parte de si. Parecia que andava recolhendo suas partes pelo mundo e que sempre achava algo que não sabia ter perdido. Ele sempre me dizia que preferia viajar a ter um bom carro. Como ele referia, “venho sempre mais rico das viagens que faço”. Fixo o olhar na matriosca e nela vejo que meu pai era feito de várias camadas. As palavras duras que envolviam seu ser escondiam sua sensibilidade. E cada uma dessas camadas revelava-se capa de uma outra mais profunda. Não sei se alguma vez cheguei a conhecer a última das suas camadas. Não sei se alguma vez chegarei a conhecer a mais profunda delas...

 

 

AMORES


Quando era nova gostava de prolongar as madrugadas. Aliás, ainda hoje gosto de sentir a noite acordada, de sentir as suas loucuras. Sempre que posso, saio na noite, enfio-me pelas suas curvas, de copo na mão, tropeçando de bar em bar. Nessas noites sonho mais facilmente. Não falo dos sonhos prosaicos que enchem a nossa vulgaridade. Não falo das viagens que voam nos cartazes das agências de viagens, nem dos euromilhões que nos sorteamos em horas de aperto, nem do amor fugidio em que nosso destino apostou, nem tampouco dos resultados clínicos que nossos medos transformam em saúde de ferro. Falo, sim, de sonhos megalómanos, de sonhos à Alexandre o Grande, à Napoleão, à Ícaro, à D. Sebastião, que irremediavelmente terminam num sobressalto de queda e ruína. Em muitas dessas noites eu terminava nos lençóis desfeitos de uma cama desconhecida, penetrada pelas dores lancinantes da ressaca de vodka. O bafo dos estranhos que naufragavam ao meu lado na cama quase sempre me queimavam os restos das asas da noite perdida. Eu era quase sempre a primeira a abandonar a liça onde nossos corpos coreografaram uma luta fingida de wrestling. Saía de pés na mão, procurando não acordar o pesadelo que ainda roncava numa chiadeira de álcool e tabaco. Saía sob o silêncio de uma morte, com todo o peso de um cortejo fúnebre arrastando-se em meus ombros caídos, em meus olhos cansados. Ainda hoje não entendo a razão destes amores à Lobo Antunes que terminam no chafurdar das águas tépidas de bidés.

 

****


Foi numa noite em que o marulho do mar chegava até mim num marrar de touro enfurecido. Eu teimava na nossa relação à janela do quarto que alugáramos para umas miniférias. Teimava em fantasiar um castelo que, implacavelmente, as ameias dos dias continuavam derrubando. Revia na língua do mar as línguas ávidas de outras noites. Relembrava os beijos húmidos que agora ressacavam no fundo de mim. Atrás de mim, sabia-o vegetando frente ao piscar frenético do televisor. Sabia que seu mastro jazia na planura dos lençóis, debaixo dos boxers que lhe oferecera no último natal. A nossa última ceia já acontecera e não adiantava continuar a trair-nos a nós próprios. Foi nessa noite em que o marulho do mar chegava até mim num marrar de touro enfurecido que eu placidamente compreendi que o nosso amor fora vencido e os seus despojos amontoavam-se num passado de cacos.



* * *

 

 

 

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